
Anteriormente, já tive a oportunidade de escrever sobre as afirmações correntemente aceitas, de que utilizamos apenas cerca de dez por cento de nossa capacidade. Em que pese referida constatação, pouco ou quase nada se ensina sobre as razões das limitações, tampouco onde estariam escondidas as potências não utilizadas, ou de como desfrutá-las. Em que pese isso, a natureza, os semelhantes, e nós mesmos, somos, incessantemente brindados com a comprovação dessas outras inteligências, sem, no entanto, nos darmos conta. Dia desses, fui chamado para atender um cliente em um município vizinho, o qual, havia sido preso em flagrante por crime de porte ilegal de arma. Lá chegando, me deparei com a esposa do mesmo, visivelmente abalada, segurando no colo uma pequena criança junto a delegacia local. Inteirei-me da situação, fui informado que havia ele sido preso às seis horas da manhã em sua residência e que desde àquele horário estavam naquele ambiente. Diante da impossibilidade de solução naquela repartição, após redigir a competente peça processual, retornei até o foro local, na parte da tarde, onde lá encontrei a mamãe e sua filha aguardando-me. Após as providências normais, voltei a conversar, na parte externa do prédio, isso já por volta das quinze horas. Lá, haviam pequenas mesas de concreto com banquinhos de idêntico material, onde expliquei que aguardaríamos a decisão judicial a respeito do pedido de liberdade. Durante todo este tempo, percebi àquela pequena criança, agitada, embora nenhuma palavra pronunciasse. Então me contou a mãe que ela era portadora de doença mental rara, que embora com cinco anos, recém havia dado os primeiros passos. Neste momento, a menina que estava no colo da mãe, subiu na mesa, pegou a cópia da petição de liberdade que eu havia formulado, colocou-a sob sua cabeça e deitou, assim permanecendo, por bom tempo, imóvel. Já no final do dia, com a expedição do alvará de soltura a mãe se dirigiu até o presídio para buscar o marido, levando a filha. No dia seguinte, em meu escritório, diante do que havia visto, perguntei como havia sido o contato da filha com o pai ao que mãe contou-me que a pequena, desde o instante em que o pai entrou no carro, passou a rir, o tempo todo, até chegarem em casa. Que inteligência moveu àquela pequena criatura? Que inteligências movem tantos seres portadores de necessidades especiais, que embora não se expressem verbalmente dão grandes lições? Que inteligências movem as crianças que mesmo sem saber falar, demonstram compreender coisas que pensamos que não entendem? Quem sabe precisemos ser um pouco mais crianças, falar menos, sentir mais, respirar mais, viver mais.
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